quarta-feira, 25 de novembro de 2009

de autocaravana pelas estradas da Europa

ONDA CURTA

levar Portugal a todo o mundo através da rádio

O solstício de verão é a época de ouro, para nos aventuramos de autocaravana pela Europa fora rumo a norte. Quanto mais subimos em latitude, maiores são os dias, com o consequente melhor aproveitamento que nos dá para desfrutarmos de outras terras .
Este ano apontámos para a Bretanha na segunda quinzena de Junho e prolongámos a estadia até à primeira semana de Julho. Tivemos o cuidado de previamente consultarmos o sítio de RDP Internacional, para obtermos o mapa de frequências e os horários de emissão em onda curta. Praticamente todos os dias, de manhã e à noite, ligávamos o rádio e lá íamos tendo notícia do que por cá se passava. Até que, no último domingo do nosso roteiro, constatámos que a RDP ocupava aquele espaço, durante uma hora inteira com a transmissão de uma missa Este facto pareceu-nos inexplicável e, quando regressámos expusemos a questão ao Provedor do Ouvinte (o jornalista Adelino Gomes).

Eis o texto da nossa exposição:
"Sr Provedor do Ouvinte:
A RDP Internacional é minha companhia habitual todos os anos, quando aproveito alguns dias de férias para me aventurar pela Europa.
No passado dia 5 de Julho (domingo) sintonizei a banda dos 25m (12.020KHz) e para minha surpresa, constatei que entre as 8h00 e as 9h00, hora de Lisboa, a emissão foi integralmente preenchida com a transmissão de uma missa.
Já há anos vos chamei a atenção para esta situação. É que nem sequer é preciso invocar a laicidade do Estado, já que o facto de se transmitir um serviço religioso através da onda curta, seja ele qual for, revela uma total desatenção para com os objectivos que determinam a concessão planetária deste espaço das rádio-frequências. A RDP Internacional está, desta forma, a prestar um mau serviço e a desperdiçar um bem que é escasso e precioso.
Por mim, passado o primeiro susto e depois de olhar em volta para ver se quem estava por perto não me tinha tomado por um qualquer talibã, a solução foi desligar o rádio e perder uma tão apetecida hora de contacto com Portugal.
Faço votos de que esta anomalia seja rapidamente resolvida."

A exposição foi recebida pelo Provedor em 20 de Julho, que dois dias depois informou-me estar a trabalhar o assunto. A resposta definitiva veio em 9 de Setembro, tendo em conta que o Provedor teve de inquirir os responsáveis de RDP Internacional e entretanto meteram-se as férias. Pediu-me então para gravar o meu depoimento, o que se revelou difícil pois fui acometido por um princípio de afonia, tecnicamente ultrapassado pelo elevado profissionalismo dos sonoplastas da RDP. Uma semana depois a minha exposição foi para o ar, juntamente com os comentários da Direcção da RDP Internacional.

Da justificação que foi dada, de que não possuo gravação, retive dois aspectos essenciais, a saber:
1 - Que a transmissão da missa através da onda curta era de uma importância tal que, até já tinha acontecido uma vez, nos Açores, em que a falta dum padre para celebrar a missa foi resolvida com a colocação do rádio no altar;
2 - Que há hábitos instalados na nossa comunidade emigrante, que não prescinde da transmissão de tal serviço religioso através da onda curta.


O primeiro argumento deixou-me perplexo. Conheço um pouco dos Açores, e pelo menos uma ilha em pormenor (São Jorge) e não estou a ver aquela gente a aceitar que aquele território seja sujeito ao estatuto de fora de pátria, onde não chega a onda média e o FM. Esquisito. Sacudi a cabeça, voltei à realidade e lá dei o desconto de que, muito provavelmente o responsável da RDP Internacional que isto dizia estaria em simultâneo a compor um texto para o "portugalex". Passei adiante.

Já o segundo argumento merece-me todo o respeito. Será mesmo assim? E impus-me o esforço de tentar obter elementos que me permitam saber de que lado está a razão. Tarefa difícil, porque nessa área os meus contactos são escassos.
Servi-me então da experiência por que passei em 1983, no trabalho que desenvolvi de apoio à nossa comunidade emigrante no departamento 94 (Vale de Marne). Fosse hoje ainda vivo o saudoso Duarte, homem que fez milagres no fenómeno das rádios-livres que proliferou naquela época e teria um retrato rigoroso. A esta ponta acrescentei outra de laços familiares em Toulouse, de modo a estabelecer uma rede de duas dúzias de colaboradores, os quais permitiram saber da opinião, sobre sesta matéria, de pelo menos uma centena de portugueses emigrados.
Com um quadro destes, a sondagem teria de ser muito simples, de molde a obter a opinião dos respondentes sobre três questões:
Se ouviam a RDP Internacional;
Se ouviam a missa das 9 da manhã de domingo;
Caso não ouvissem a tal missa, e estivessem ligados à RDP Internacional quando ela começava, se desligariam o rádio como eu fiz.
Para os especialistas em sondagens, este meu questionário pode parecer pouco ortodoxo, mas para mim pareceu-me ser a melhor forma de ter resposta às minhas dúvidas. Passaram-se dois meses e tenho agora uma amostra, constituída pela opinião de mais de uma centena de portugueses.
Os resultados confirmam o que já previa. Se quanto aos ouvintes da RDP Internacional foi suplantada a minha previsão, pois mais de metade ouvem aquela emissora, quanto aos ouvintes da missa, o resultado é aterrador: Nenhum dos inquiridos tem o rádio ligado naquela hora. E há alguns que confessam ter o rádio ligado quando a missa começa, desligando-o de imediato.
Que fique claro que o que está em causa, não tem a ver com o facto de a RDP Internacional ser uma emissora oficial de um estado laico. O problema é mais profundo e tem a ver com a própria concepção da onda curta, onde salvo em situações muito excepcionais, não cabe a transmissão de tais eventos. Coisa que a Direcção da RDP Internacional tarda a perceber.

sábado, 21 de novembro de 2009

de autocaravana pelas estradas de Portugal
TELEVISÃO DIGITAL TERRESTRE
Em 2008 resolvi equipar a autocaravana com uma televisão LCD, tendo em vista o aproveitamento de espaço que um ecrã plano proporciona, aspecto sempre a ter em conta na relação com a viatura que nos dá o prazer supremo de acedermos a esta forma de viver o mundo.
O aparelho que elegi, além de ter a espessura de um livro, o que permitiu aplicá-lo com facilidade numa das paredes, trazia uma vantagem adicional, pois já vinha equipado para receber a televisão digital terrestre, coisa que chegaria a Portugal num futuro próximo. Logo na primeira saída, ao parar em Salamanca, foi um deslumbramento. É que o aparelho não só sintonizou automaticamente uma dúzia de canais como ainda revelou aquilo de que não estávamos à espera, uma qualidade de imagem impensável em Portugal mesmo nas redes digitais por cabo.
Entretanto entrámos no último trimestre de 2008 e é feito o anúncio do lançamento para este ano da TDT em Portugal. Esfregámos as mãos de contentes, pois íamos ter também na nossa terra a oportunidade de ver televisão na autocaravana com qualidade, digamos "europeia".
O pior é que passou-me mais de metade do ano de 2009 e de televisão digital népia, ainda que tenhamos feito sucessivas tentativas. Só nos restou a solução de contactar o vendedor do equipamento para saber das razões de tal situação.
A resposta deixou-nos atónitos. Respigamos o essencial:

"o seu receptor vem equipado com um sintonizador digital terrestre com descodificador MPG2, que é usado em quase toda a Europa. No entanto em 26 de Fevereiro de 2009 o Conselho de Ministros português definiu a norma MPG4 para Portugal e o apagão do sinal analógico para 2012. A 3 de Março deste ano a PT publicou os parâmetros técnicos para a recepção de TV digital em Portugal e a adopção do MPG4 como norma em Portugal. Não é norma vinculativa pois há marcas que ainda comercializam os seus LCD’s sem a norma MPG4".
Na prática nunca irei sintonizar nenhum canal digital em Portugal. E a partir de 2012 este aparelho, só por si, como a quase totalidade dos actualmente a funcionar no nosso país, não servirão para nada!
Não foi difícil perceber o que está em causa. A nossa rede de emissores de TDT vai emitir um sinal de televisão que não pode ser recebido por qualquer televisor em uso no resto da Europa e vice-versa. Coisa estranha e de que ninguém perceberá a utilidade. A não ser...
Foram as dúvidas que me levaram a recuar à lembrança do meu primeiro emprego, quando em 1964 fui trabalhar para a pioneira das interurbanas automáticas na empresa que é actualmente a PT. Após alguns contactos encontrei aí alguém que me deu uma interpretação para esta história. Para este especialista, esta decisão tem a ver com interesses comerciais, já que depois desta fase, que terá como primeira consequência já em 2012 a desactivação de todas as antenas de VHF (mesmo as de VHF3 as de elementos mais curtos), outra se seguirá em que, inevitavelmente, a transmissão de televisão por ondas hertzianas passa a ser residual, havendo em quase todas as habitações uma ligação aos operadores de cabo, seja por fibra ou por satélite. Acabarão então as antenas que enfeitam os telhados das nossas casas.
Não me parece que a coisa seja assim tão linear, mas o pior é perceber os efeitos desta medida em relação aos campistas e autocaravanistas. O meu interlocutor apenas me adiantou que ninguém deve ter pensado nisso.
Admitamos que no ano de 2012 já tão próximo, teremos encostadas os nossos actuais televisores e adquirido novos já com a norma MPG4. Pois, mas o pior é que mal passemos a fronteira, mesmo estes novos estes aparelhos não servem para nada. Na prática vamos ser confrontados com um muro de novo tipo, separando Portugal da Europa e com uma extensão nunca antes imaginada. Pensado, afinal, com o mesmo objectivo de todos os outros de betão que existiram, existem ou serão levantados. São sempre os interesses do poder económico que estão na sua origem!
Não restam dúvidas que estamos perante uma prepotência inaceitável. Quem governa este país tomou uma medida contra os interesses dos autocaravanistas, sem os ouvir e com o objectivo declarado de os prejudicar. Prepotência que exige que se lute contra ela.
Paradoxalmente, esta nova fronteira traz-nos à memória aquele grande homem que nasceu numa terra que foi passando de um lado para o outro de outras fronteiras, e que por tal ainda hoje tem dois nomes Trier ou Tréveris. Merece que lhe adaptemos a sua principal palavra de ordem, que para este caso ficará

"Autocaravanistas de todo o Portugal, uni-vos!".

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

de autocaravana pelas estradas de Portugal

ONDE PARAR!

Nas últimas décadas tem vindo a acelerar-se um processo de desumanização das nossas vias de comunicação rodoviárias. Organismos oficiais e projectistas convergiram num sentimento comum, que é o de que as estradas servem apenas para que quem nelas se aventure, o faça com o exclusivo objectivo de partir de um ponto para atingir outro, sem aproveitar nada do que faz parte do caminho. Como se quem circula nas nossas estradas, mesmo que na posse de todos os sentidos, não seja mais do que uma variante de mercadoria, que se despacha asfalto adiante.
Passa-se isto num país pleno de belezas naturais, como é o nosso Portugal.
Os autocaravanistas têm desta problemática uma visão particular. Sentem como ninguém o que é ir pela estrada fora e terem de fazer quilómetros e quilómetros à procura de uma sítio para encostarem para os mais diversos motivos. E não é só nas auto-estradas porteadas, onde sabem à partida que têm de pagar portagens caras e que as áreas de serviço apenas servem para comprar o jornal, já que todos os outros serviços são pagos com tarifas de salteador. Nas outras, as chamadas scut's, ainda vai havendo algum bom-senso, registe-se a qualidade da A24 na serra de Bigorne e alguns outros exemplos. Também nas estradas nacionais, nomeadamente os IC's e os IP's a situação não é famosa, nomeadamente no que toca à existência de locais decentes para parar.
Por isso, vale a pena que todos façamos um pequeno esforço, registando os exemplos que contrariam esta regra e divulgando-os para que tiremos proveito deste prazer que deveria ser o de circular de autocaravana país adentro.
O IC8, entre Pombal e a A23 nas cercanias de Vila Velha de Ródão, é um exemplo acabado do que atrás fica dito. Via estruturante pois é das poucas transversais de que dispomos, com um traçado relativamente recente, não dispõe de coisas tão elementares como sejam postos de abastecimento de combustível, de tal forma que quem roda para leste, depois de Ansião que se cuide.
No meio desta desgraça toda registe-se uma coisa notável. Ao quilómetro 84, passada a saída para Figueiró dos Vinhos, antes da passagem superior que dá acesso a Graça e Vila Facaia, um pequeno parque de merendas prova como é possível fazer bem sem grandes alaridos. Mesas, sombra, água corrente e até um pequeno jardim infantil, tudo um regalo para quem já não espera por surpresas destas. E ainda, pasme-se, instalações sanitárias de qualidade e sempre irrepreensivelmente limpas, separadas por sexo e onde não falta papel higiénico e sabão! A escassos metros e à vista do itinerário complementar, mas ainda assim protegida dos ruídos, esta é uma obra a merecer todos os louvores. À entrada uma placa indica que "Adega" é o nome da terra e depois mais nada referencia esta obra, nem quem esteve na sua origem, ou se esteve algum membro do governo ou autarca na sua inauguração, sinal de que foi feita para servir quem passa e não para promover quem a fez.
Merece registo. E que os autocaravanistas que por lá passam aí percam alguns momentos, a melhor homenagem que lhe pode ser feita.
Para completo registo aqui ficam as coordenadas do Parque de Merendas N 39º55.497' W8º.13.127'

quinta-feira, 16 de abril de 2009

GPS

como introduzir uma localização por coordenadas

Por vezes torna-se mais prático introduzir um destino no GPS utilizando as coordenadas geográficas do local, em vez da morada ou do código postal.
Põe-se então o problema que é o de, na maioria dos casos, dispor-se apenas das coordenadas (latitude e longitude) em sistema sexagesimal (graus, minutos, segundos) e o aparelho só aceitar as coordenadas em graus e seus submúltiplos.
Para obter as coordenadas a introduzir, deve proceder-se da seguinte forma:
Introduzir o valor em graus e o separador (em regra o ponto, mas há casos em que é válida a vírgula);
Consultar a tabela no verso, somar as equivalências centesimais dos minutos e segundos;
Acrescentar o valor obtido à direita do ponto ou vírgula dos graus já inseridos
.

EXEMPLO
coordenadas 39º 05' 59"
pela tabela:
05' 08333
59" 01638 somando dá
09971
isto quer dizer que:


39º 05' 59" = 39.09971º (ou 39,09971)

para os mais interessados convém saber que 1" corresponde em latitude a cerca de 30metros no terreno (1'= 1800m). Este valor, na longitude, é válido apenas no Equador, indo depois diminuindo para os polos. O valor exacto resulta da multiplicação pelo coseno do ângulo correspondente à latitude. Assim em Portugal 1" serão cerca de 23 metros, e em Oslo (60º N) será metade (15m).

TABELA PARA CONVERSÃO DE
graus sexagesimais em graus centesimais


' " ' " ' "
01 01666 00027 ... 21 35000 00583 ... 41 68333 01138
02 03333 00055 ... 22 36666 00611 ... 42 70000 01166
03 05000 00083 ... 23 38333 00638 ... 43 71666 01194
04 06666 00111 ... 24 40000 00666 ... 44 73333 01222
05 08333 00139 ... 25 41666 00694 ... 45 75000 01250
06 10000 00166 ... 26 43333 00722 ... 46 76666 01277
07 11666 00194 ... 27 45000 00750 ... 47 78333 01305
08 13333 00222 ... 28 46666 00777 ... 48 80000 01333
09 15000 00250 ... 29 48333 00805 ... 49 81666 01361
10 16666 00277 ... 30 50000 00833 ... 50 83333 01388
11 18333 00305 ... 31 51666 00861 ... 51 85000 01416
12 20000 00333 ... 32 53333 00889 ... 52 86666 01444
13 21666 00361 ... 33 55000 00916 ... 53 88333 01472
14 23333 00388 ... 34 56666 00944 ... 54 90000 01500
15 25000 00416 ... 35 58333 00972 ... 55 91666 01527
16 26666 00444 ... 36 60000 01000 ... 56 93333 01555
17 28333 00472 ... 37 61666 01027 ... 57 95000 01583
18 30000 00500 ... 38 63333 01055 ... 58 96666 01611
19 31666 00527 ... 39 65000 01083 ... 59 98333 01638
20 33333 00555 ... 40 66666 01111 ... 60 00000 00000

copyright Manuel Cruz

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Importante para todos os campistas, caravanistas e autocaravanistas

Já entraram em vigor as novas disposições legais, que regulam o funcionamento dos parques de campismo.
foi publicada a Portaria 1320/2008 de 17/11
(entrou em vigor no dia seguinte)


Instalação, classificação e funcionamento dos parques de campismo e caravanismo

Numa primeira leitura, os principais aspectos a ter em consideração, são os seguintes:

artigo 2º - Os parques podem ser públicos (para toda a gente) ou privativos (apenas para os associados)
artigo 4º - Os parques estão obrigados a ter sombras naturais. Enquanto não as tiverem é obrigatória a criação de sombras artificiais.
artigo 5º - Os parques estão obrigados a ter uma área útil de 13m2 por utente.
artigo 6º - A área destinada a acampamento não pode exceder 60%da área total do parque.
artigo 9º - A superfície mínima destinada a cada equipamento é de 25 m2.
artigo 10º - Da vedação à área destinada às instalações deve haver uma distância mínima de 3m. É interdito o estacionamento de veículos nas vias de circulação interna.
artigo 11º - O estacionamento de veículos só é permitido em áreas expressamente previstas para o efeito.
artigo 14º - É interdita a instalação de coberturas laterais. As coberturas superiores não podem ultrapassar a área das tendas ou caravanas e ser de material resistente ao fogo.
artigo 19º - Havendo bangalós, não podem ultrapassar 25% da área total destinada a campistas.
artigo 24 º - Só é permitido acender fogo em equipamentos autorizados no regulamento do parque. Não é permitido implantar estruturas fixas ou proceder à pavimentação do solo.
artigo 25º - O regulamento interno do parque regula a admissão de animais, as condições a que deve obedecer o material desocupado, os equipamentos de queima autorizados e a circulação de veículos.
artigo 27º - Os parques que admitam caravanas ou autocaravanas devem dispor de estação de serviço
artigo 28º - A área de terreno mínima para caravanas e autocaravanas é de 50 m2.
artigo 29º - Existindo áreas exclusivas destinadas a autocaravanas, que não se encontrem integradas em parques de campismo, apenas estão obrigadas às disposições respeitantes a coberturas, devem dispor de recepção presencial ou automática e a permanência não pode ultrapassar 72 horas.

domingo, 16 de novembro de 2008

conjuro da queimada

CONJURO DA QUEIMADA
Parque de Campismo "Quinta do Rebentão"
12 de Julho de 2008

Sapos e bruxas, mouchos e crujas,
demonhos, trasgos e dianhos,
spírtos das eneboadas beigas,
corvos, pegas e meigas,
feitiços das mezinheiras,
lume andante dos podres canhotos furados,
luzinha dos bichos andantes,
luz de mortos penantes,
mau olhado, negra inveija,
cheiro de mortos, trevões e raios,
uivar de cão, piar de moucho,
pecadora língua de má mulher
casada cum home belho.
Vade retro, Satanás,
prás pedras cagadeiras!
Lume de cadávres ardentes,
mutilados corpos dos indecentes,
peidos de infernais cus.
Barriga inútil de mulher solteira,
miar de gatos que andam à janeira,
guedelha porca de cabra mal parida!
Com esta culher levantarei labaredas deste lume,
que se parece co do inferno.
Fugirão daqui as bruxas,
por riba de silbaredos e por baixo de carvalhedos,
a cabalo na sua bassoira de gesta,
pra se juntarem na Quinta do Rebentão
e se banharem nas águas límpidas das suas Piscinas
E voltarem assim purificadas, inofensivas,
a este paraíso Campista.
Oubide! Oubide
os rugidos das que estão a arder nesta caldeira de lume.
E cando esta mistela baixe polas nossas gorjas,
ficaremos libres dos males e de todo e embruxamento.
Forças do ar, terra, mar e lume,
a vós requero esta chamada:
Se é verdade que tendes mais poder
que as humanas gentes,
fazei que os spírtos ausentes
dos campistas que andam fora
participem connosco desta queimada!

Conjuro da Autoria do Padre António Fontes de Vilar de Perdizes

edições cá sete

Tranquilino Maia
A Eurovela e o Monstro

Nota prévia
A EUROVELA começou por ser uma pequena empresa, localizada em Salir de Matos, Caldas da Rainha, especializada no fabrico de velas de cera decorativas. Cresceu até possuir um grande estabelecimento fabril na Zona Industrial. No auge do crescimento, faleceu o empresário que a tinha fundado e a fábrica ficou entregue à viúva e a quem ela se fez rodear, sendo que todos somados não chegavam para garantir o funcionamento da empresa tal como existia até então. Como é costume nestes processos entrou em fase acelerada de degradação e, com insolvência iminente, os patrões entraram pelo caminho de violar os mais elementares direitos dos trabalhadores, desde salários em atraso a despedimentos selvagens.
A luta não se fez esperar e atingiu uma dimensão até aí desconhecida em terras de Bordalo Pinheiro. Depois de manifestações e concentrações, os trabalhadores despedidos instalaram um acampamento no logradouro da fábrica com o objectivo de evitarem a delapidação do património. Mesmo com a intervenção das autoridades, o acampamento não foi desmontado e daí, os trabalhadores passaram à ocupação integral da empresa até ao seu encerramento definitivo. O acampamento chegou a ser transferido temporariamente para uma das praças principais de Caldas da Rainha, num relvado frente à Câmara, ao Tribunal e à Repartição de Finanças.
Foi uma luta exemplar e motivou esta fábula de Tranquilino Maia.
As edições cá sete, que até aí se dedicavam apenas a publicações "tesoura e cola" e raros panfletos, editaram A Eurovela e o Monstro no formato de livro de cordel. Foi portanto a estreia desta via editorial, cujas edições se limitam a escassas centenas de exemplares, distribuídos gratuitamente e sem depósito legal.



Tranquilino Maia
A Eurovela e o Monstro
fábula social
edições cá sete


capítulo I
A BELA
Era uma vez. É assim que começam todas as histórias, é também assim que começa esta história. Que mete belas, monstros, feitiços e histórias de encantar, fadas e bruxas, lacaios e eunucos. Não falta cá nada. E se faltar, ainda está a tempo de entrar.
Como não podia deixar de ser, porque é uma história de encantar, tudo gira á volta da "bela". Longe vão os tempos em que havia uns cantos do mundo escondidos, e então era lá, à volta do palácio dum rei bom e dum príncipe encantado, que tudo se passava. Agora que já vamos no século vinte e um, que dos reis só restam meia dúzia de palermas, se são bons duvidamos porque se assim fosse haveriam de se dedicar a outra ocupação que não a de monarcas, e príncipes encantados só nas revistas dos futebóis e do jet-set, com um cenário destes temos de nos contentar com o que há. E siga a história.
Procuremos então a bela. E onde? Ah! é verdade o povo continua a existir, e então se o povo é a única coisa que ficou destas histórias de fadas, e como o povo agora é povo da Europa, a história passa-se nesse reino, salvo seja, mágico, que é a Europa. Para quem não saiba fica ali mesmo ao virar da esquina, quem não se puser a pau até está já lá dentro sem saber, ou fazendo de conta, estando e não estando, se sim para o bem e se não para o mal, ou vice-versa que cabe cá tudo. E então a bela é da europa, a europa é da bela, a bela europa, a europa bela, quem dia bela lá vem uma vez em que arrasta o sotaque para o tripeiro e diz vela, quem diz europa fica-se por euro, para poupar e já está, euro e vela, temos princesa e vamos chamar-lhe eurovela!
E por todos os cantos do palácio se há-de cantar à bela "Oh! Ana vem cá, Oh! Ana vem cá…". E se calhar se irá por caminhos e veredas em busca de novas formas, que os cânticos nunca serão demais e a imaginação que não falte, e se as modas vão mudando. de tal forma que quando esta história se passa o que se cantava era "as meninas da ribeira do Sado têm carrapatos atrás das orelhas", eis que por conveniência das modas a bela se converte ao carrapato. Só que por ignorância pura e lembranças da salsa e cebola, em vez de ir parar às carraças, acachapa no feijão do dito, o carrapato, que o povo, chama de "frade" e temos outra vez que o povo entra a querer estragar esta história. Mas não vai ser capaz, coitadinho do povo, coitadinho, ou abreviando como fica bem e já que íamos por aí, coitadinho fica coutinho. Será? Se não for a história o dirá.
Já temos bela, só falta o monstro. E aí vamos nós.



capítulo II
O MONSTRO
Era suposto que a bela se iria picar no fuso duma roca, pelo menos foi assim que nos ensinaram. Sucede que esta história se passa não em terra de tecelões, mas numas caldas do oeste, onde os artesãos pouco sabiam de fiar o linho, antes tinham transferido toda a sua ciência para a moldagem do barro, dando-lhe formas que poderão parecer esquisitas, mas que de mais natural nada haverá. Temos assim que se a bela adormeceu, e se ficou á espera do beijo do príncipe por ter sido picada, isso deve ter envolvido qualquer coisa mais volumosa. E fiquemo-nos por aqui que esta é uma história para contar às crianças e ao povo.
Cá para mim tenho que a bela do feijão carrapato, não se deve ter aleijado muito na primeira parte da história, aquela em que se pica. Não só pela sugestão que atrás fica, mas muito mais porque se sabe que a princesa se saiu aqui muito bem, e se vier a ser picada, se houver sangue será na parte final da história, o que quer dizer que anda tudo ao contrário, já nada é como era dantes.
A bela está então num mundo de fadas. Com o apoio dos melhores dos seus fiéis súbditos, ou não se tratasse duma princesa, meteu-se numa grande empresa, a de fazer velas para toda a europa, ou não fosse ela uma eurovela. E logo ali decidiu que tudo tinha de correr pelo melhor dos mundos, com ordem como mandam os bons costumes, para ela o ordenado não poderia ser muito mais que três mil contos, mas para os súbditos seria sempre assegurado o salário mínimo nacional. Como se vê, nenhum pormenor foi descurado, isto era o que se pode chamar o reino da "justiça social". E siga a história.
capítulo III
O NATAL
Naquele Natal em que a eurovela se picou, o rei sempre a pensar no conforto do seu povo, tinha posto uns durões no governo e deu-lhes a missão de empacotar o povo, que como todos sabemos nada há de mais confortável que um pacote. Sabe-se que houve uns que protestaram, há mesmo quem diga que os protestos atingiram uma dimensão nunca vista, mais de um milhão e setecentos mil, o que para um reino pequeno deve ser mentira, mas pronto as coisas são o que são.
E a eurovela lá deve ter pensado, que nunca ninguém disse que as princesas estavam proibidas de pensar, lá que parece, parece, mas falta a prova, deve ter pensado que devia também fazer qualquer coisa pelo bem do seu povo, e deve ter mesmo pensado que esta coisa de ela sacar três mil contos e quem trabalhava não passar do salário mínimo, não devia estar certo e teria de ser alterado. Quem sabe destas coisas dirá que é coisa sem lógica, pois assim como vai dito é que as coisas são e devem ser, mas caramba, estamos numa história de fadas e deixem-nos sonhar.
Portanto, a eurovela decidiu que vai mudar o curso da história, que vai acabar com a exploração. Depois disto não haverá mais quem ganhe num mês para cima dos salários somados dum trabalhador em toda uma legislatura, agora que parece que perdemos a agilidade de fazê-las curtas. E se bem o pensou, melhor o fez, mandou o povo para casa uma semana do Natal até ao Ano Novo e pôs-se a matutar numa solução final para o problema. Foi aí que se fez luz na sua mente. Pondo-se fora da fábrica quem trabalhava muito e ganhava pouco, acabava a discriminação. Como é que nunca ninguém tinha pensado nisto!
Faltava só encontrar a forma de concretizar tão brilhante ideia. Logo percebeu que tinha de fazer uma carta, faltava saber quem a faria e em que termos.

capítulo IV
O EUNUCO
Como princesa que se prezava, não dispensava um eunuco na sua corte. A quem incumbia das tarefas difíceis, e foi a quem naturalmente foi calhar encontrar a solução para o dilema do Natal. Eis então o nosso eunuco, a partir para a campanha decisiva, candidamente de branco vestido com a sua batina vistosa.
Dizem as más línguas que este eunuco não era bem como devia ser. Sabido era que o que saltava à vista no que toca a órgãos avariados, facilmente se concluía que deveria andar mais por um pólipo que por outra coisa. Falando direito, mais do que provado que fosse capado, gago era de certeza.
E vai então o eunuco gago, à procura de quem fizesse a carta. Da ordem do reino contava então da existência de prefeitos distritais, e um que estaria por esse tempo na reserva foi feito consultor e recomendou ao eunuco que procurasse advogado a quem encomendar as cartas.
E lá vai o nosso eunuco gago em demanda de advogados, palreando em cada esquina da forma que a sua deficiência lho permitia que viessem ad-advogados acudir à precisão da eurovela princesa. E não é que vieram mesmo, logo em cima do Natal e ainda antes do Ano Novo lá estavam os AD-Advogados com as cartas prontas a seguirem. Para que a história não parasse.
Da castração do eunuco que não está provada, ficam porém grandes desconfianças, já que pelo contrário, a criatura ganhou fama de que estava a pensar em fornicar o povo. Falhou a concretização mas não se livra de que se diga que terá caminhado pela tentação.

capítulo V
O BEIJO DO PRINCIPE ENCANTADO
Porque o inspector-geral do reino andasse concubinado com outras eurovelas, porque o prefeito daquele distrito não se distinguisse muito do antecessor que tinha dado em consultor, havendo mesmo quem afiançasse que tinha sido transformado por arte doutra fada má num porco pequenino, porque o ministro a quem o povo queria explicar das suas razões entrou pela porta do cavalo, não admira que esta história esteja toda ao contrário. Ele são os homens das leis a recomendar que elas não sejam aplicadas, os donos a não darem a cara pelo que é seu, e uns fidalgotes a promoverem-se protagonistas numa fita cómica. Quando afinal isto era apenas um conto de fadas.
Para que tudo fosse ao contrário só falta esta que é inevitável, a da bela se picar no fim da história e em vez dum beijo de príncipe, levar nas trombas com um estrondoso peido do povo.
Para que alguma normalidade seja reposta nesta história ao contrário, sabe-se que será sempre confirmada a velha máxima QUEM RI POR FIM É QUE RI MELHOR. Com tudo a correr tão fora do que seria normal, ainda nos arriscamos a ver a bela presa ao pelourinho da comarca. E então se saberá quem desta história bem fará.