Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

uma aventura em Castro Verde

Uma aventura em Castro Verde
fábula autocaravanista





Em plena batalha de Ourique vimos nascer Portugal

Receosos porque os tempos não estavam para grandes performances, situação agravada pelo facto de termos de andar sempre à procura da bomba onde mais barato nos vendessem gasóleo, do que poderia resultar abastecermos a nossa nave do tempo com um carburante pouco afoito a uma vertiginosa viagem através dos séculos, decidi-mos ainda assim arriscar. Atestada a berlinga apontámos ao Alentejo com a expectativa de retrocedermos pelo menos um século em cada hora de viagem e chegarmos a tempo de ver nascer Portugal.
O nosso primeiro rei nasceu, viveu, reinou, morreu e foi sepultado em Coimbra e por via da sua maneira de ver o mundo a partir deste cantinho da Europa, nunca se deixou estar parado tempo suficiente para que o supusessem parado, do que resultou que ainda hoje haja quem ponha em causa onde terá nascido, vivido, reinado e morrido, ou mesmo se terá nascido, vivido, reinado ou morrido.
Então, a nossa aventura vale mesmo a pena. Vamos acelerar mais de oito séculos e meio para trás, de forma a ficamos cara a cara com ele, numa das façanhas que melhor o podem identificar, seja porque se dele até se põem em causa aspectos fundamentais da sua existência, desta façanha se começa por se pôr em causa onde foi cometida para depois se duvidar mesmo se existiu.
Vamos directos à batalha de Ourique.
Regulada a máquina do tempo para andar para trás conforme os nossos cálculos, uma hora passada um século a menos, donde resultaria que, se tudo estiver certo, estaremos no campo de batalha no ano da graça de 1139, a data mais provável em que a refrega terá ocorrido, embora o rigor dos historiadores seja tão instável que o risco de pisarmos o risco seja, para simples mirones como nós, tão grande como o de entrarmos pelo reino da asneira, o que só arriscamos pelo supremo saber de preferir o risco à castração.
Não devemos ter errado por muito pois, quando chegámos ao sítio que hoje é conhecido por São Pedro das Cabeças e à época para que a infernal máquina do tempo nos levou era tão só Fossado, deparámos com uma confusão indescritível, dum lado tropa farta vestida de branco onde até havia, imaginem só, mulheres guerreiras a cavalo, amazonas em exército árabe pode lá ser, esfregámos os olhos e pareceu-nos não haver dúvidas, então e se confusão é de tal ordem, e do outro lado com ar façanhudo estão os lusitanos em muito menos quantidade mas batalhando com a nossa ancestral habilidade para resolver as coisas difíceis e falhar nas mais fáceis, era inevitável que iríamos vencer a batalha.
Desta confusão não viemos muito esclarecidos.
Mas temos de respeitar o resultado. Cinco a zero é uma goleada de tal ordem que nem dá direito a segunda mão. As cabeças da linha avançada do adversário lá ficam pelo chão e um dia alguém dirá que tal vitória, conseguida com tamanha desproporção de forças só pode ter sido obra de milagre de São Tiago, e por isso o lugar passará a ser chamado de São Pedro.
Por tudo quanto já foi dito, esta não era a nossa aventura. Acordámos, voltámos aos dias de hoje e rodámos meia dúzia de quilómetros em redor até que demos com uma vila simpática, Castro Verde, onde para o parque de campismo estava anunciado o décimo quinto encontro de autocaravanas pyc-mmvv, isso sim uma verdadeira aventura.
Aí vamos nós.



O Parque Municipal de Campismo de Castro Verde

Chegados ao camping, situado na ponta noroeste do burgo, levámos com a seca do costume em terras lusas. De facto lá estava, atrás de um balcão, aquilo que nos pareceu ser uma das moçárabes que Afonso Henriques levou no séquito e que São Teotónio mandou restituir à liberdade, mas que a nossa secular tradição de sermos muito lentos a fazer justiça terá mantido esta moura convertida em pena suspensa, agravada nos dias de hoje com a suprema forma de tortura que é a de ter de aguentar oito horas seguidas atrás do balcão de um parque de campismo a fingir-se ocupada, mesmo sabendo que em menos de dez minutos por dia dava conta do recado. E não é que faltassem tarefas bem mais úteis, por exemplo averiguar quem comeu a paella que a esposa andaluza do galego Eduardo tinha preparado para degustação do colectivo, ou decifrar o estranho caso do desaparecimento de um galheteiro do azeite!
Feito check-in, acantonámos. O parque não é plano mas disfarça, não é relvado mas vá lá vá lá, não tem sombras mas para lá caminha. Porque vínhamos da guerra, a primeira intenção foi irmos directos ao duche e aí verificámos que só para abrirmos a torneira levávamos com a descarga do chuveiro. Claro que o canalizador que fez tal obra deve-se ter apercebido da asneira, pois acabada esta parte do trabalho retirou sem sequer te instalado suporte para sabonete.
Registámos e nem sequer refilámos, pois o calor humano com que fomos recebidos, saneou toda a contestação. Mais tarde haveríamos de constatar, para concluir o rol das críticas, que a iluminação nocturna é excessiva.
Finalmente registámos a presença de equipamento adornado com bandeiras de cruz azul sobre fundo branco, igualzinhas às que o primeiro rei hasteou na batalha de Ourique, mas que hoje por estranha coincidência identificam um povo eslavo com raízes russo-suecas, os suomis da Finlândia.
De seguida fomos consultar o programa e logo houve uma coisa em que jurámos não alinhar, uma qualquer investida sobre o moinho de vento, pois para confusões históricas já estávamos aviados, além de que a berlinga não é nenhum Rocinante.
Julgávamo-nos livres de mais envolvimentos com a História, com todo o tempo para o lazer. Nem sabíamos quanto estávamos enganados.



O coração do campo branco


Castro Verde será terra pequena, mas tem um circuito turístico urbano de fazer inveja a terras maiores e recheadas de monumentos. Com a vantagem de nem sequer precisarmos de transporte motorizado para o cumprir.
Ponto obrigatório para início do circuito, a Basílica Real, decorada com painéis de azulejos que procuram retratar a tal batalha onde tivemos a ilusão de ter estado no dia anterior. A basílica é real em homenagem a D. Sebastião que por aqui passou, cinco anos antes de, numa incursão a Álcacer Quibir, se ter dado para guerrear até aos limites da insensatez, indo ao ponto de ficar sozinho a espadeirar rodeado de dezenas de descendentes dos outros que o nosso primeiro rei derrotara em Ourique. Por vontade do Desejado a batalha ainda hoje não teria acabado, mas os mouros é que não estiveram pelos ajustes e um deles, de um golpe separou a cabeça do jovem rei de um corpo que, ao que dizem, estaria há muito roído de doenças. E assim acabou a dinastia de Avis.
Pelas crónicas que ficaram, a tal viagem de D. Sebastião, quase dois meses pelo Algarve e Alentejo, onde só não teve recepção entusiástica em Entradas e Castro Verde. O cronista Cascão, um Fernão Lopes de segunda extracção diz mesmo que só nestas terras não houve apresentação de "ordenanças a pé".
Mas o que é isso face ao simbolismo que sobre ele exercia o tal lugar, então chamado de Cabeços, e que hoje é São Pedro embora pudesse ser Santiago! O jovem rei deve ter pensado que se o objecto da sua devoção era aquela batalha e se São Tiago iria acabar patrono de Entradas, se o seu bisavô D. Manuel I deu foral a estas terras enquanto ele em tudo procurava ter com exemplo o tio-bisavô D. João II, o melhor era acabar com as confusões. E dizem, mandou pôr a matriz na Senhora dos Remédios, provavelmente com a secreta esperança de que, pouco mais de um século depois fosse erigida, quase ao lado, a basílica onde podem ser apreciados aqueles magníficos azulejos.
Para os interessados por arte sacra, é ainda obrigatória a visita guiada ao seu magnifico Tesouro, o que nós não perdemos.
Da basílica seguimos para o Museu da Lucerna, onde se encontra a que dizem ser a maior colecção de candeias de azeite do que foi o império romano. Só um estranho conjunto de circunstâncias terá permitido que muitas destas peças de frágil barro permaneçam intactas, quase dois mil anos depois de saírem das mãos dos oleiros. E são largas centenas.
Esgotado o programa da tarde, a noite reservou-nos mais uma agradável surpresa, um espectáculo de dança contemporânea, onde os profissionais da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo excederam a melhor das nossas expectativas. A peça tinha um fundo musical com os fados da nossa saudosa diva e, houvesse o cuidado de se ter preparado um libreto, estávamos perante uma quase sub-ópera.
Fantástico, e são horas de ir dormir.




Uma janela sobre a planície

Na manhã seguinte, mais uma surpresa extra-programa, a vila estava ocupada por uma feira de velharias, artesanato e gastronomia regional, um aperitivo de excelência para uma tarde numa "janela sobre a planície".
Este programa iniciou-se no Monte das Oliveiras, dominante sobre uma planície, onde não há cem anos más políticas pensaram ter o celeiro de Portugal, esta pátria de vinhas à beira-mar plantadas imaginada auto-suficiente em cereais e, descoberto o erro, outras políticas igualmente más pararam a produção intensiva duma forma que poderia ter levado as terras … a não produzir nada. Salvou-as o engenho destas gentes, que vai disfarçando um mal pior. O monte é o mais acabado exemplo da estrutura rural transtagana.
Do que alcança do alto, dá para imaginar a sul a terra revolvida por toupeiras humanas, na freguesia da Santa Bárbara de Padrões, entre as aldeias de A-dos-Neves e A-do-Corvo, tão só a mais importante actividade económica do Portugal de hoje em volume de exportações. Afinal, é da terra que nos vem tudo.
Finda a visita ao monte arrancámos para a ermida de Nossa Senhora de Aracélis, quase um enclave castro-verdense em terras de Mértola e de onde se alcançam terras de Espanha. Depois, sempre com a planície a cheirar a um Abril maduro, campos fora até Casével onde nos esperava a Associação de Cante Vozes das Terras Brancas, desta vez sem o elenco masculino, mas não se perdeu nada, nem sequer faltou, a pedido do nosso comandante, o "passarinho das quatro da madrugada".



Tudo na vida tem um fim


Caminhamos para o fim da aventura, pouco mais resta que gastronomia e paleio.
O jantar de "gala", as "generalidades e culatras", o almoço partilhado, o regresso às origens e o compromisso de, para o ano e para muitos mais regressarmos à aventura. E assim vamos, também nós, fazendo história.
Depois de abandonarmos o camping, ainda demos uma última espreitada à tal igreja, da Senhora dos Remédios, também chamada das Chagas do Salvador e aí pareceu-nos ver a explicação para D. Sebastião nada ter feito por ela, se calhar adivinhou que vinha a seguir um Filipe que a reconstruiria.
D. Sebastião deixou escola para os políticos de hoje, que não sabendo resolver os nossos problemas, ficaram à espera que viesse o FMI tomar conta disto.
Até que um dia o povo aplique ao FMI o remédio para os filipes. Janela fora.

Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

o caso da herança Fèteira



CONTINUA A ESPECULAR-SE EM TORNO DE QUESTÕES MARGINAIS

Quando estalou o escândalo da herança Fèteira, publiquei o que tinha como provado em relação aos primeiros anos da evolução do Lúcio Fèteira, que o levou à condição de um dos homens mais ricos do mundo.
Tudo o que publiquei resulta da memória de homens que estão à beira do centenário e não oferece qualquer dúvida quanto à sua veracidade, seja quanto à ida do Lúcio para a Legião Estrangeira, à sua passagem pelo partido comunista e pela presidência da junta de freguesia de Vieira de Leiria, a abertura e o encerramento estudados da fábrica da Guia, o título de cônsul do Paraguai e ao seu envolvimento num atentado e à fuga posterior no hidravião.
Nada disto oferece dúvidas.

A partir daqui,. a versão que eu conheci originalmente vai para duas décadas, sendo difícil obter-lhe hoje elementos comprovatórios, vale ainda assim um registo. Tem a ver com o que escrevi então sobre dois aspectos ainda hoje obscuros:
- Terá o Lúcio Fèteira estado envolvido num tentado contra Salazar?
- Houve ou não o beija-mão da família Fèteira ao ditador, na sequência do envolvimento do Lúcio no hipotético atentado e da sua fuga no hidroavião?

A primeira questão irá continuar envolta em controvérsia até ao final da história. De facto, o único atentado contra o ditador ocorreu em 4 de julho de 1937, logo depois de ter estalado a guerra civil espanhola, tendo todos os seus pormenores sido assumidos por Emídio Santana, anarco-sindicalista. E mesmo que se admita que uma certa característica individualista que caracterizava os militantes desta causa e que os levava a procurar protagonismo acima de tudo (veja-se a acção na véspera do 18 de janeiro de 1934 na central eléctrica de Coimbra então localizada na rua Figueira da Foz), parece de todo improvável que o Lúcio se metesse com este gente.
Resta então a hipótese de o comprovado envolvimento na tentativa de atentado contra o ministro da Indústria, ter intenções de ir mais além, ter ocorrido dez anos depois.
Sendo hipótese não assumida pelos seus contemporâneos, não deixa de ter alguma lógica. A qual seria a de o Lúcio Fèteira, depois de ter acertado com o Cunha e o pistoleiro contratado a forma como seria concretizado o atentado contra o ministro, ter mudado de ideias e decidido que o alvo seria o próprio Salazar.
Tudo vai continuar envolvido em brumas. O certo é que a acção contra o regime em que o nome do Lúcio Féteira pode ser envolvido, como financiador em associação com Cupertino de Miranda, é o levantamento militar de 10 de abril de 1947 nos quartéis de Tomar, Tancos e Entroncamento, falhado por falta de colaboração do restante dispositivo militar, falhanço esse que atrasou por quase três décadas a queda do regime fascista.

E é na sequência desse factos e da fuga do Lúcio que surge a segunda grande dúvida. Sabendo-se que os Fèteiras eram escora fundamental do dito "Estado Novo", e não sendo o Lúcio um dos quatro irmãos mais velhos a quem o pai confiou a propriedade da empresa, onde só entrou mais tarde por ter comprado a quota de um dos irmãos, como terá reagido a família ao envolvimento do delfim? Houve mesmo audiência de desagravo, o falado beija-mão?
O mistério vai prosseguir, mas há uma coisa que ninguém pode esconder que é o facto de um dos seus irmãos ter sustentado publicamente a teoria de que o Lúcio tinha sido recolhido na aldeia do Pilado pouco depois de ter nascido, em consequência de uma das graves crises de fome que caracterizaram a passagem do século XIX para o século XX, e que ao regressar poderá ter sido trocado. Conta-se que até foi dito, em socorro desta teoria, que haver um lenhador nos pinhais com as características físicas dos Fèteiras e esse sim seria o verdadeiro Lúcio! A falta que nos faz hoje Alexandre Herculano para pôr estas lendas no seu devido lugar.
Portanto, se houve ou não beija-mão dos Fèteiras a Salazar, é assunto que vai continuar no segredo dos deuses. Certo é que a ter acontecido a audiência, o ditador ao ouvir esta desculpa deve ter sorrido para dentro, anuído por conveniência e pensado lá para com os seus botões "è disto que o meu Portugal precisa".





ps1: A razão porque o Lúcio, que não foi destinado para "dono" da fábrica, coisa reservada pelo pai Joaquim Fèteira para os quatro irmãos mais velhos, e a forma como ele se sobrepôs a eles de tal forma que no centenário da empresa é ele que vai discursar na presença de ministros e embaixadores e depois de ter regressado da famosa fuga, terá origem no facto de ao Lúcio ter sido proporcionada a oportunidade de ir estudar para o Externato Correia Mateus, cujo edifício ainda existe.
ps2: Certa comunicação social continua a agarrar este assunto pelas questões marginais, o que só pode ser explicado por estar em causa muito dinheiro.

Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

LÚCIO FÈTEIRA
como a história poderia ter sido diferente


No final dos anos 20 do século passado, Lúcio Fèteira que era com o seu irmão gémeo o décimo filho legítimo do fundador do império metalúrgico da Vieira de Leiria, partiu para a Argélia levado pelo espírito de aventura.
Partiu por iniciativa própria, sem dizer nada a ninguém, nem ter cortado a ligação ao PCP de que era militante. Esteve três anos naquela colónia francesa , onde fez parte da Legião Estrangeira.
Com a prisão e o desterro de Bento Gonçalves para o Tarrafal, o partido fê-lo regressar, admitindo-se a possibilidade de assumir as funções de secretário-geral. Quando a família soube disto iam caindo o Carmo e Trindade, pois o Lúcio além de ser o único com instrução passou a ser a ovelha negra, já que todos os irmãos eram de extrema-direita, a começar pelo Albano que estava à frente das empresas da família e foi fundador da Legião Portuguesa. Lá conseguiram dissuadir o Lúcio entregando-lhe o cargo de presidente da Junta de Freguesia, onde entre outras coisas conseguiu trazer a energia eléctrica para a Vieira. Da ligação ao PCP ficou-lhe até ao fim da vida o cargo de cônsul do Paraguai que lhe haveria de ser precioso no futuro.
Depois, com um certo ar de conveniência casou com a filha do outro grande industrial, o Dâmaso, que o fez estagiar na fábrica de vidros. Rapidamente arrancou para nova aventura que foi a de abrir a mais moderna fábrica de vidro plano, na Guia, concelho de Pombal, para onde levou os melhores operários da Marinha Grande e da Fontela. Mas ainda o negócio não tinha aquecido, aquando do primeiro aniversário da laboração, promoveu uma festa de estadão, que mais não foi que uma manobra para fechar a fábrica, abrindo outra muito maior, beneficiando dos capitais do Cupertino de Miranda, no único espaço com condições para tal, em Santa Iria da Azóia. Nascia assim a COVINA e desenhava-se no horizonte uma das maiores fortunas do mundo.
Até que, anos mais tarde, o ministro da Indústria, Daniel Barbosa, lhe travou novos ânimos expansionistas. O Lúcio não se fez de modas e ofereceu participação no capital da empresa ao ministro, o que ele recusou por tal ser proibido aos governantes, coisa que até poderia ser contornada atribuindo-se essa quota à esposa do ministro. Só que a mulher recusou e a expansão dos negócios continuou embargada.
Isto não travou a vontade do Lúcio Fèteira. Com um sócio, o Cunha, contratou um homem a quem entregou uma pistola e deu como missão assassinar o ministro. Só que o pistoleiro perdeu a coragem e acabou por se entregar ao ministro. O Cunha foi de imediato preso pela PIDE, mas o Lúcio ainda conseguiu arranjar um mecânico-piloto que com ele arrancou do cais do Beato, no hidroavião de que o Lúcio era proprietário e lá voaram até ao Paraguai, e daí partiu para o Brasil onde construiu mais um império.
O Cunha passou uns anos na prisão e o Lúcio, com o poder que tinha lá conseguiu um indulto muitos anos depois.
O Lúcio Féteira morreu à beira dos cem anos de idade, com uma fortuna colossal e uma situação familiar atípica. Ainda era casado mas, há mais de trinta anos que vivia com a ex-esposa de um amigo e sem filhos legítimos, ainda que filhos ilegítimos da família Fèteira serão centenas na Vieira de Leiria.
Há dez anos que se perfilam os candidatos à herança, coisa que até parecia fácil face à existência de testamento. Mas quando as coisas se passam ao nível de quem levou uma vida como o Lúcio, nada pode ser dado como certo. Não é só o arrastar do processo prelos tribunais, a coisa chegou ao assassinato da que foi a companheira que viveu em união de facto com o Lúcio até a morte os separar.
Onde é que isto vai parar?
Eu, cá para mim, resolvia a questão de uma forma simples devolvendo toda a herança ao povo da Vieira. Afinal foi do seu suor e sofrimento que saiu aquela enorme fortuna.

Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2010

coimbra

COIMBRA já tem

Estacionamento Privativo para Autocaravanas


Está já instalada a primeira zona de estacionamento exclusiva para autocaravanas na cidade de Coimbra.
Situada na margem esquerda do Mondego, a montante da ponte de Santa Clara, na zona que foi conhecida por "choupalinho" e onde agora coexistem vários equipamentos de lazer, onde se destaca o "queimódromo", que é o palco das principais iniciativas da Queima das Fitas.
A zona de estacionamento fica em frente do Clube Náutico e tem, para já, como equipamento de apoio uma pequena ESA, onde as autocaravanas podem fazer o abastecimento gratuito de água potável e proceder ao despejo de cassetes químicas.



COMO CHEGAR:
Para quem vem de norte pelo IC2, depois de passar a ponte de Santa Clara, vira-se à esquerda e na rotunda seguinte toma-se a última saída. Segue-se alguns metros no sentido das Lages e na primeira curva (á direita), entra-se por um acesso que fica à esquerda e onde se encontra um sinal de sentido proibido salvo trânsito local, que deve ser ignorado. Passa-se o estacionamento dos autocarros de turismo e, logo depois temos o nosso parque de estacionamento, sinalizado com indicação de estar aberto 24 horas por dia e ser permitida a pernoita. Para quem venha se sul pela IC2, deve contornar a rotunda de acesso à ponte nova e continuar a descer até à rotunda seguinte, saindo então pela primeira saída.
Coordenadas do parque N 40º 11.961' W 8º 25.730'.



ACESSOS À CIDADE A PARTIR DO PARQUE:
Em frente do parque fica a moderna ponte pedonal. Do lado de lá são as "docas" e logo após o parque da cidade e o Largo da Portagem dominado pela estátua do "mata-frades". Estamos no centro da cidade, podendo então seguir-se a pé pela "calçada" pela baixa adiante, ou subir-se as couraças até à alta e à universidade.
Uma recomendação especial para quem utilize este parque, é que não perca uma visita ao convento de Santa Clara a Velha. Este monumento esteve séculos debaixo de água e lama e foi recentemente recuperado. E a partir do parque, é só atravessar um túnel sob o IC2. Num raio de algumas dezenas de metros temos ainda o Portugal dos Pequenitos e a Quinta das Lágrimas. E mais não digo, que falar de monumentos na primeira capital, que é a mais monumental das nossa cidades é como comer cerejas.

Segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009


















de autocaravana pelas estradas de Portugal

PARA QUANDO UMA ESA EM LEIRIA

A minha experiência diz-me que, é por pura ignorância que muitas autarquias continuam sem resolver coisas básicas que têm a ver com o universo autocaravanista. Das quais, a mais elementar é a que diz respeito à instalação da Áreas de Serviço par Autocaravanas, que já devia estar generalizada.
Leiria não foge à regra. ESA é coisa que cá não há. E a falta que faz, mais até à própria cidade que aos autocaravanistas, que quando por cá param, se limitam a estacionar...
E o problema até é de fácil solução.
Os autocaravanistas que nos visitam, têm tendência para estacionar nos espaços adjacentes ao estádio, cuja parte pavimentada ocupada às terças-feiras e sábados, com o mercado. Do outro lado do rio existe igualmente um estacionamento que, face ao crescimento da Nova Leiria tem agora um carácter muito de centro de cidade. Não é aqui que o problema se resolve.
Para nós a solução ideal, passa pela utilização do parque de estacionamento junto ao IMTT (ex-Direcção Geral de Viação), à entrada de S Romão. Situa-se no extremo oriental do Polis, junto ao Parque Radical, um estacionamento pavimentado e completamente plano que, mesmo nas alturas de maior utilização, nunca chega a atingir os 50% de utilização. Embora fique a escassas dezenas de metros da Galp, do Ibis e do MacDonalds, está de tal forma resguardado que é como estivéssemos no campo. Com a vantagem de mesmo ao lado termos um Lidl, um centro comercial Intermarché, o hospital, etc. O Polis deu-nos uma margem do rio Lis impecavelmente conservada, e dotada de caminhos pavimentados para a prática de actividades de lazer. E em poucos minutos estamos no centro da cidade. Um verdadeiro achado.
Só falta portanto instalar uma ESA. De que é que estão à espera?
Sugiro aos companheiros que façam uma visita ao local, onde até podem pernoitar com toda a qualidade. E que façam crescer a pressão junto da autarquia no sentido de ser desbloqueada a instalação da ESA.

como chegar:
vindo pela A1: Ao chegar à rotunda do Hospital, sair pela esquerda e está na Circular Interna de Leiria. Contornar a rotunda seguinte (Galp, MacDonalds, Hotel Ibis) pela última saída e entrar logo na faixa da esquerda que dá acesso à Rua da Ascensão (direcção do ISLA). O IMTT (antiga Direcção Geral de Viação) fica logo alguns metros adiante. Uma vez mais à esquerda e em vez de entrar pelo portão do IMTT, guine à direita e está no estacionamento do Parque Radical.
Vindo do IC2-N1: Se vier do sul a seguir ao Continente vira à direita e entre na rotunda D Dinis. Se vier de norte é antes do Continente. Na rotunda, escolha a primeira saída. Está na Avenida das Comunidades Europeias que não é mais que a continuação da Circular Interna. No final tem a rotunda do Mac Donalds, saia na primeira saída e siga o que acima foi dito.
coordenadas do estacionamento N 39º 44' 03" W 8º 47' 51"


INFORMAÇÃO ADICIONAL
Respondendo a uma questão posta, esclareço o complexo de ténis fica do outro lado do rio Lis e é acedido a partir deste estacionamento através de uma ponte pedonal.
E já agora acrescento que no estacionamento há internet gratuita. É só aceitar as condições de "leiriaregiãodigital" e navegar à vontade. Boa estadia!

Quarta-feira, 25 de Novembro de 2009

de autocaravana pelas estradas da Europa

ONDA CURTA

levar Portugal a todo o mundo através da rádio

O solstício de verão é a época de ouro, para nos aventuramos de autocaravana pela Europa fora rumo a norte. Quanto mais subimos em latitude, maiores são os dias, com o consequente melhor aproveitamento que nos dá para desfrutarmos de outras terras .
Este ano apontámos para a Bretanha na segunda quinzena de Junho e prolongámos a estadia até à primeira semana de Julho. Tivemos o cuidado de previamente consultarmos o sítio de RDP Internacional, para obtermos o mapa de frequências e os horários de emissão em onda curta. Praticamente todos os dias, de manhã e à noite, ligávamos o rádio e lá íamos tendo notícia do que por cá se passava. Até que, no último domingo do nosso roteiro, constatámos que a RDP ocupava aquele espaço, durante uma hora inteira com a transmissão de uma missa Este facto pareceu-nos inexplicável e, quando regressámos expusemos a questão ao Provedor do Ouvinte (o jornalista Adelino Gomes).

Eis o texto da nossa exposição:
"Sr Provedor do Ouvinte:
A RDP Internacional é minha companhia habitual todos os anos, quando aproveito alguns dias de férias para me aventurar pela Europa.
No passado dia 5 de Julho (domingo) sintonizei a banda dos 25m (12.020KHz) e para minha surpresa, constatei que entre as 8h00 e as 9h00, hora de Lisboa, a emissão foi integralmente preenchida com a transmissão de uma missa.
Já há anos vos chamei a atenção para esta situação. É que nem sequer é preciso invocar a laicidade do Estado, já que o facto de se transmitir um serviço religioso através da onda curta, seja ele qual for, revela uma total desatenção para com os objectivos que determinam a concessão planetária deste espaço das rádio-frequências. A RDP Internacional está, desta forma, a prestar um mau serviço e a desperdiçar um bem que é escasso e precioso.
Por mim, passado o primeiro susto e depois de olhar em volta para ver se quem estava por perto não me tinha tomado por um qualquer talibã, a solução foi desligar o rádio e perder uma tão apetecida hora de contacto com Portugal.
Faço votos de que esta anomalia seja rapidamente resolvida."

A exposição foi recebida pelo Provedor em 20 de Julho, que dois dias depois informou-me estar a trabalhar o assunto. A resposta definitiva veio em 9 de Setembro, tendo em conta que o Provedor teve de inquirir os responsáveis de RDP Internacional e entretanto meteram-se as férias. Pediu-me então para gravar o meu depoimento, o que se revelou difícil pois fui acometido por um princípio de afonia, tecnicamente ultrapassado pelo elevado profissionalismo dos sonoplastas da RDP. Uma semana depois a minha exposição foi para o ar, juntamente com os comentários da Direcção da RDP Internacional.

Da justificação que foi dada, de que não possuo gravação, retive dois aspectos essenciais, a saber:
1 - Que a transmissão da missa através da onda curta era de uma importância tal que, até já tinha acontecido uma vez, nos Açores, em que a falta dum padre para celebrar a missa foi resolvida com a colocação do rádio no altar;
2 - Que há hábitos instalados na nossa comunidade emigrante, que não prescinde da transmissão de tal serviço religioso através da onda curta.


O primeiro argumento deixou-me perplexo. Conheço um pouco dos Açores, e pelo menos uma ilha em pormenor (São Jorge) e não estou a ver aquela gente a aceitar que aquele território seja sujeito ao estatuto de fora de pátria, onde não chega a onda média e o FM. Esquisito. Sacudi a cabeça, voltei à realidade e lá dei o desconto de que, muito provavelmente o responsável da RDP Internacional que isto dizia estaria em simultâneo a compor um texto para o "portugalex". Passei adiante.

Já o segundo argumento merece-me todo o respeito. Será mesmo assim? E impus-me o esforço de tentar obter elementos que me permitam saber de que lado está a razão. Tarefa difícil, porque nessa área os meus contactos são escassos.
Servi-me então da experiência por que passei em 1983, no trabalho que desenvolvi de apoio à nossa comunidade emigrante no departamento 94 (Vale de Marne). Fosse hoje ainda vivo o saudoso Duarte, homem que fez milagres no fenómeno das rádios-livres que proliferou naquela época e teria um retrato rigoroso. A esta ponta acrescentei outra de laços familiares em Toulouse, de modo a estabelecer uma rede de duas dúzias de colaboradores, os quais permitiram saber da opinião, sobre sesta matéria, de pelo menos uma centena de portugueses emigrados.
Com um quadro destes, a sondagem teria de ser muito simples, de molde a obter a opinião dos respondentes sobre três questões:
Se ouviam a RDP Internacional;
Se ouviam a missa das 9 da manhã de domingo;
Caso não ouvissem a tal missa, e estivessem ligados à RDP Internacional quando ela começava, se desligariam o rádio como eu fiz.
Para os especialistas em sondagens, este meu questionário pode parecer pouco ortodoxo, mas para mim pareceu-me ser a melhor forma de ter resposta às minhas dúvidas. Passaram-se dois meses e tenho agora uma amostra, constituída pela opinião de mais de uma centena de portugueses.
Os resultados confirmam o que já previa. Se quanto aos ouvintes da RDP Internacional foi suplantada a minha previsão, pois mais de metade ouvem aquela emissora, quanto aos ouvintes da missa, o resultado é aterrador: Nenhum dos inquiridos tem o rádio ligado naquela hora. E há alguns que confessam ter o rádio ligado quando a missa começa, desligando-o de imediato.
Que fique claro que o que está em causa, não tem a ver com o facto de a RDP Internacional ser uma emissora oficial de um estado laico. O problema é mais profundo e tem a ver com a própria concepção da onda curta, onde salvo em situações muito excepcionais, não cabe a transmissão de tais eventos. Coisa que a Direcção da RDP Internacional tarda a perceber.

Sábado, 21 de Novembro de 2009

de autocaravana pelas estradas de Portugal
TELEVISÃO DIGITAL TERRESTRE
Em 2008 resolvi equipar a autocaravana com uma televisão LCD, tendo em vista o aproveitamento de espaço que um ecrã plano proporciona, aspecto sempre a ter em conta na relação com a viatura que nos dá o prazer supremo de acedermos a esta forma de viver o mundo.
O aparelho que elegi, além de ter a espessura de um livro, o que permitiu aplicá-lo com facilidade numa das paredes, trazia uma vantagem adicional, pois já vinha equipado para receber a televisão digital terrestre, coisa que chegaria a Portugal num futuro próximo. Logo na primeira saída, ao parar em Salamanca, foi um deslumbramento. É que o aparelho não só sintonizou automaticamente uma dúzia de canais como ainda revelou aquilo de que não estávamos à espera, uma qualidade de imagem impensável em Portugal mesmo nas redes digitais por cabo.
Entretanto entrámos no último trimestre de 2008 e é feito o anúncio do lançamento para este ano da TDT em Portugal. Esfregámos as mãos de contentes, pois íamos ter também na nossa terra a oportunidade de ver televisão na autocaravana com qualidade, digamos "europeia".
O pior é que passou-me mais de metade do ano de 2009 e de televisão digital népia, ainda que tenhamos feito sucessivas tentativas. Só nos restou a solução de contactar o vendedor do equipamento para saber das razões de tal situação.
A resposta deixou-nos atónitos. Respigamos o essencial:

"o seu receptor vem equipado com um sintonizador digital terrestre com descodificador MPG2, que é usado em quase toda a Europa. No entanto em 26 de Fevereiro de 2009 o Conselho de Ministros português definiu a norma MPG4 para Portugal e o apagão do sinal analógico para 2012. A 3 de Março deste ano a PT publicou os parâmetros técnicos para a recepção de TV digital em Portugal e a adopção do MPG4 como norma em Portugal. Não é norma vinculativa pois há marcas que ainda comercializam os seus LCD’s sem a norma MPG4".
Na prática nunca irei sintonizar nenhum canal digital em Portugal. E a partir de 2012 este aparelho, só por si, como a quase totalidade dos actualmente a funcionar no nosso país, não servirão para nada!
Não foi difícil perceber o que está em causa. A nossa rede de emissores de TDT vai emitir um sinal de televisão que não pode ser recebido por qualquer televisor em uso no resto da Europa e vice-versa. Coisa estranha e de que ninguém perceberá a utilidade. A não ser...
Foram as dúvidas que me levaram a recuar à lembrança do meu primeiro emprego, quando em 1964 fui trabalhar para a pioneira das interurbanas automáticas na empresa que é actualmente a PT. Após alguns contactos encontrei aí alguém que me deu uma interpretação para esta história. Para este especialista, esta decisão tem a ver com interesses comerciais, já que depois desta fase, que terá como primeira consequência já em 2012 a desactivação de todas as antenas de VHF (mesmo as de VHF3 as de elementos mais curtos), outra se seguirá em que, inevitavelmente, a transmissão de televisão por ondas hertzianas passa a ser residual, havendo em quase todas as habitações uma ligação aos operadores de cabo, seja por fibra ou por satélite. Acabarão então as antenas que enfeitam os telhados das nossas casas.
Não me parece que a coisa seja assim tão linear, mas o pior é perceber os efeitos desta medida em relação aos campistas e autocaravanistas. O meu interlocutor apenas me adiantou que ninguém deve ter pensado nisso.
Admitamos que no ano de 2012 já tão próximo, teremos encostadas os nossos actuais televisores e adquirido novos já com a norma MPG4. Pois, mas o pior é que mal passemos a fronteira, mesmo estes novos estes aparelhos não servem para nada. Na prática vamos ser confrontados com um muro de novo tipo, separando Portugal da Europa e com uma extensão nunca antes imaginada. Pensado, afinal, com o mesmo objectivo de todos os outros de betão que existiram, existem ou serão levantados. São sempre os interesses do poder económico que estão na sua origem!
Não restam dúvidas que estamos perante uma prepotência inaceitável. Quem governa este país tomou uma medida contra os interesses dos autocaravanistas, sem os ouvir e com o objectivo declarado de os prejudicar. Prepotência que exige que se lute contra ela.
Paradoxalmente, esta nova fronteira traz-nos à memória aquele grande homem que nasceu numa terra que foi passando de um lado para o outro de outras fronteiras, e que por tal ainda hoje tem dois nomes Trier ou Tréveris. Merece que lhe adaptemos a sua principal palavra de ordem, que para este caso ficará

"Autocaravanistas de todo o Portugal, uni-vos!".